Inspirados pelo Mathias

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Recentemente, li uma matéria sobre um garoto de 19 anos, o Mathias Dunker. Ele namora, trabalha, toca vários instrumentos, tem amigos. Até aí, relativamente comum. Ele também foi o primeiro aluno da cidade de São Paulo (cidade cheia de distrações) a tirar nota máxima no Enem, em Matemática. Este foi o primeiro ano que isso aconteceu, em 17 anos da prova.

Um resultado assim gera curiosidade – Ele é nerd? Tem vida além do estudo? Que tipo de família tem? As respostas podem nos inspirar a começar o ano refletindo sobre nossas carreiras, nosso papel nas organizações e nossas vidas.

1. “O jovem pertence a uma família que valoriza muito o conhecimento”.

Está provado que pais que têm prazer de aprender, que conversam sobre suas percepções do mundo, que pesquisam juntos “onde fica o Irã”, têm filhos mais curiosos. Filhos que não relacionam o aprender com o ambiente da escola, com professor, ou com prova no dia seguinte. Não é um pai ter aquele discurso bonito para os filhos. É sobre ser exemplo, sobre como preenchemos nosso tempo, todo dia. Como adultos profissionais, temos mesmo prazer em aprender algo novo? Ou o fazemos por que nosso diretor pode perguntar amanhã algum conteúdo do treinamento? Ainda aprendemos o porquê podemos ser testados?

2. “O Mathias nunca teve pressão para ser o melhor da classe”.

As redes sociais estão prontas para receber registros dos nossos melhores momentos e disseminar para nossos “amigos”, fazendo-os se sentir frustrados por não terem vivido coisas igualmente bacanas naquele dia. Aí eles fazem o mesmo, justamente no feriado que você está sem dinheiro e o máximo de diversão permitida é Netflix. Ao fazer e mostrar, estamos criando sutilmente a competição – aquela sensação de ser melhor ou pior, sempre comparando. E ao fazer para mostrar, aí a alma já está sendo corrompida.

Competimos nas organizações, nas famílias, na sociedade – o tempo todo. Precisamos urgentemente de muitos contrapontos, para que nossa mente compreenda que nortear nossa vida por competição para nos sentirmos melhores que os outros nas pequenas e nas grandes coisas, pode não ser o único caminho da felicidade. Querer ser o melhor parece algo bom, porque nos motiva para a disciplina, para não nos desviarmos para um caminho ruim, da autodestruição. Mas chega um ponto em que nos viciamos em relativizar tudo o que fazemos – e aí nos perdemos. Fazemos o curso só para que o nosso gerente veja nosso esforço – mesmo que, durante as aulas, façamos outra coisa e nem prestemos muita atenção.

Em conversas informais, nosso tema é o quanto somos bons e/ou o quanto todas as outras pessoas do mundo não são. Esse vício impede a nossa capacidade de termos prazer em contribuir sem levarmos os créditos, de colaborar. Como podemos, de fato ajudar alguém se queremos ser melhores do que ele? Competir com você mesmo, ser um pouco melhor a cada dia e, às vezes, só curtir a pessoa que você já é, o pouco ou o muito que conquistou, parece ser um caminho mais perto da felicidade. A vontade de ser melhor que os outros ou ter mais que os outros é um enorme obstáculo neste caminho, pois nos deixa arrogantes (quando somos e temos) ou inseguros (quando não). Arrogância e insegurança são os principais motivos pelos quais pessoas são demitidas nas empresas. Principais razões da infelicidade humana.

3. “Sofri bullying por ser inteligente e dedicado”.

Nas organizações, isso acontece todo dia, sutilmente. Sofrem um pouco todo dia aqueles profissionais que de fato gostam dos seus líderes, que elegem mentores informais, que se aproximam de presidentes com a mesma naturalidade e curiosidade que se aproximam de faxineiros e dos porteiros. São tidas como “esquisitas” as pessoas que não se conformam com a mediocridade, que não querem perder horas com bobagens que a tecnologia e a mídia conseguiram deixar tão acessíveis em nossos celulares. Ainda são considerados puxa-sacos aqueles que levam o trabalho com alegria e responsabilidade, que não escondem seus erros.

Será que você é do time que ridiculariza (em pensamento, palavras e ações) os profissionais competentes, inteligentes e interessados, só para se sentir “por cima”? Ou você é o profissional bacana que se sente um pouco excluído de alguns grupos? Tudo sutil, tudo delicadamente tóxico. No final do dia nos sentimos infelizes e não sabemos o porquê, pois nada sério aconteceu. Aconteceu.

4. “Vi que a forma mais fácil de aprender é ensinar”.

Mathias percebeu que se trabalhasse como voluntário, ensinando outros alunos, aprenderia mais, pois os alunos fariam perguntas que ele não saberia responder. Então, ele estudava tudo sozinho, depois ensinava. E em seguida, pesquisava para responder as perguntas dos alunos.

Nem toda empresa dá espaço para compartilhamento do que se aprende. Mesmo assim, quando se quer, as pessoas dão um jeito. Numa determinada Companhia de Idiomas, eles fazem uma reunião mensal exclusivamente para alguém contar sobre um livro que leu, um curso que fez. E a partir de 2016, todos são motivados a ficar pelo menos 30 minutos ao lado de algum colega cuja função é totalmente desconhecida. Algo bem livre e sem compromisso – só pelo prazer de aprender mesmo. E quem ensina aprende mais.

5. “Tem amigos e uma namorada”.

Sem prazer, vamos abandonando nossa humanidade e viramos uma espécie de robô da sociedade, pois vivemos para desempenhar papéis. Os mais disciplinados correm sério risco de terem prazer apenas com a conclusão de tarefas. Eu sou assim. Aprendi que preciso me cercar de gente livre, que não gosta muito de agenda, que subverte a ordem das coisas a fazer – para o tal contraponto, para me lembrar de que diariamente a vida é mais que tarefas cumpridas.

6. “Ele toca bateria, saxofone, gaita, flauta, piano”.

Aprender coisas que não têm nada a ver com nossas carreiras ampliam nossa visão de mundo, e nos tornam eternamente aprendizes, vulneráveis, humildes por saber que é muito difícil aprender algo do zero. Quem não é aprendiz há muito tempo começa a ficar com aquela aura de deus-sabedor-de-todas-as-coisas. Acha que está dominando e que os outros são meio burrinhos, pois você já explicou uma vez e eles não entenderam. Precisa aprender bordado ou mandarim, para se sentir vulnerável de novo. Isso nos deixa humanos.

7. “Sabe aquele cara que pega um balde de pipoca no cinema e explica como o milho estoura? É o Mathias.”

Ok! Deve ser meio chato se ele faz isso depois que o filme começa. Mas quantos de nós somos de fato curiosos sobre a vida, sobre como as coisas e pessoas funcionam? Quantos pensam nisso? Quantos vivem na superficialidade, e, na sala de cinema, ainda estão lá no Whatsapp/Facebook/Snapchat/Instagram – sem explorar a sensação que o ambiente e a companhia proporcionam? Não temos moral de condenar os que adoram o Big Brother anual, se estamos encolhendo nossos interesses diários ao que acontece na vida dos outros.

Que 2016 seja de descobertas e não apenas mais do mesmo. E que você se sinta vivo e feliz com estas descobertas!

O Mathias foi só um pretexto para propor uma reflexão sobre sucesso, felicidade e nossa forma de viver nas organizações ou em qualquer lugar.

É tempo de estar inteiro no agora, aprendendo algo com o milho da pipoca ou simplesmente explorando e curtindo o que acontece ao nosso redor e dentro de nós.

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